Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Fly me to the Moon



Essa chuva invadindo meus sonhos, deixando o sono tão mais leve, e com sorrisos inconscientes perfumando o despertar, enchendo de pequenas rosas esse quarto. Me acorda, vai, me enche de beijos, acaricia meus cabelos, sente o toque da minha pele macia pela manhã. Simplesmente acordar por que é melhor te olhar nos olhos que nos sonhos. Por mais loucos, por mais que os sonhos não retratem as tempestades, as preocupações, os compromissos. Chove lá fora, e por enquanto isso é tudo que importa. Que o tempo escorra lento pela paredes, não preciso me importar com os minutos que se extendem entre cada sorriso inocente. Por hoje deixe assim, esqueça do que um dia já foi, só se deixe assim aproveitando esse não fazer nada, só se deixe relaxar, só se deixe estar. Me trança os cabelos entre seus dedos, em minhas costas escreve histórias de guerreiros e dragões. O trovão lá fora é pretexto para me abraçar, me acalmar, me dizer tudo vai ficar bem, tudo vai ficar. Seu corpo junto ao meu, seu calor me fazendo querer estar mais e mais ali, mais perto, mais tempo, mais junto. Me acorda com palavras doces murmuradas só para mim, me acorda com promessas de dias só nossos. Me deixa com esse sorriso de tudo vai dar certo se continuares aqui. Continue aqui.

E então abro os olhos. Sozinha, e o quarto me parece tão vazio. E assim esteve.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Who are you

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
(Thiago de Mello)

Jordana queria tudo. Queria as tardes de verão e o aconchego do inverno, as mais finas iguarias e o cachorro quente da esquina, as doces notas do saxofone e a viceralidade da guitarra. Jordana achava que a vida deveria seguir de uma forma estabelecida. Estudar, crescer, trabalhar, amar, casar, criar, cansar. Andava pela rua e observava os sorrisos que recebia com uma idéia fixa das qualidades e até mesmo proporções do seu homem perfeito. Haverá de ser forte, loiro, haverá de me colher flores e abrir portas, como na música que cantava Bob Dylan. E vinha assim filtrando por entre olhares o amor certo que decididamente encontraria. Jordana era inteligente, era bonita, os cabelos quase ruivos espalhando-se por uma pele macia, que não conhecia o desgaste, que não conhecia o sofrer. Queria ser escritora, pois os escritores lhe emanavam aquela aura quase mística. De quem sabe exatamente um pouco a mais do que todos os outros. Queria uma casa no campo, com uma varanda de frente para o pôr do sol e uma sala por onde entrasse os primeiros sóis da manhã. Queria filhos. De olhos azuis e cabelos angelicais. Queria um amor perfeito, com waffles pela manhã e ardores ao fim da tarde. Com rosas aos domingos, com passeios pelo zoológico e pipoca aos macacos. Jordana queria tudo.

Queria tanto que não soube ter algo que não soubera querer. Deixou os olhos verdes e os cabelos negros passarem tristes por ela. Largou a mão macia que buscava lhe mostrar algumas pequenas belezas pelo caminho. A voz doce, os contornos belos, nada disso era o que Jordana queria. O amor simples, os sorrisos fáceis. O gostar como forma de ter. Aquela simplicidade não se encaixava em seus grandes planos. Seguiu seu caminho enfim, querendo sempre algo logo após o horizonte. Cega às margaridas que passam por seus pés, alheia às águias que voam sobre si. Jordana tanto queria que sequer percebia as belezas e felicidades da jornada. Sempre o querer, esquecendo-se do ser. Era Jordana, e o que mais?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Purple Haze

Um dia ela acordou e se sentiu um tanto enlatada. Não conseguia mais esticar suas asas, e nem lembrava mais dos movimentos para voar. Ela acordou de manhã, saiu mal humorada da cama, vestida com as brumas frias da manhã, cuspiu amargores na pia do banheiro, forjou um sorriso amarrado para o espelho. Saiu sem se despedir. Xingou o porteiro, o gato e o mendigo. Desejou que o dia esboçasse um nublado quase negro e tempestuoso, não aquele sol tão insuportavelmente agradável. Amaldiçoou o ônibus que demorava a chegar e em silêncio quis que a velhinha que se sentou onde ela iria sentar fosse atropelada por uma manada de gnus. Chegou na faculdade desejando poder ficar em casa. Foi mal na prova, tendo estudado a madrugada toda. Culpou seus melhores amigos. Entregou para cada um um frasco de rancores e vilanias que guardava especialmente. Virou a cara para um beijo de tudo vai ficar bem, afastou com desprezo os abraços de se acalme, estamos aqui. Sentia-se enlatada. Sentia-se atrofiada. Encaixotada. Almoçou brigas com a namorada. A sobremesa de você-nunca-conseguiu-me-satisfazer-como-sempre-menti lhe pareceu acidamente adequada. Estar então sozinha só lhe trouxe mais amargor à boca. Voltou para casa, durmiu remoendo seu humor singular.

No outro dia, como quem não se importa, declarou é, não estava muito bem ontem não, mas hoje estou melhor, esqueçam.

Os gnus nunca apareceram, muito menos em plena Ipiranga. Só eles esqueceram.




Am i happy or in misery?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

My way



Talvez goste daquele cheiro podre das esquinas e sarjetas. Talvez sem a dor aguda não consiga se reconhecer viva. Precisa da eterna busca, precisa sentir que perde, que não consegue, e que nunca conseguirá. Sentir o gosto do sangue na boca, o próprio sangue que mais a inebria que a faz viver. Essa vida assim, fugindo, se escondendo, brigando, só vivendo. Mostrando as garras e em um segundo com cara ao chão. Não necessariamente pelo perigo, mais pela adrenalina, mais por sentir rasgando essa dor inacabável. Forçando sorrisos falsos e seguindo em frente. Talvez seja assim, complicado, dessa forma destrutiva, a única que sabe ter. Destruindo mais a si mesma, e sentindo um prazer indescritível pelos cortes que ostenta. Destruindo os pés, correndo, sangrando, fugindo, sempre em frente. Destruindo os olhos, já vermelhos. Choro ou somente cocaína? Sempre uma forma de compensar artificialmente sorrisos quebrados, corações despedaçados. Destruídos. Não passa de um músculo a lhe manter viva, sem nenhuma capacidade de amar, de sentir aquela ponta de afeto. Não sabe se algum dia houve a capacidade. Não se importa.

Umas pessoas compensando o vazio das outras. Aquecer a cama em noites frias. Esfriar a cabeça em manhãs quentes. Nenhum nome, nenhum número de telefone, alguns sorrisos forjados, sempre os beijos estratégicos. Podre por dentro, mas mantendo as aparências, sendo aos olhos puros exatamente o que essas purezas esperam. Pode lhes dar o que querem, tudo e um pouco mais, se assim lhe convier. Se assim lhe agradar. Pode lhes levar a qualquer lugar, a todos ao mesmo tempo, e sabe disso. Mas não lhe peça sorrisos de bom dia, não lhe peça compreensão, não lhe peça afeto, e sequer fantasie sobre amor. Pode lhe dar o mundo, mas não pode dar a si mesma.

Já viu os tropeços, já viu escorrer por entre os dedos as lágrimas, o sangue impiedoso. Já viu a podridão e conheçe a vilania inerente a todas as almas. Já viu tanto, mas nunca tudo. Sepre mais. Nenhuma festa lhe é o suficiente, nenhuma dose, nenhuma vez o suficiente. Vazia? não. Faminta, sedenta, necessitando se provar como ela mesma outra e outra e outra vez. E assim é que gosta e só assim que sabe levar seus dias. Suas noites.

Não sabe como aconteceu, não sabe muito bem. Foi quem sabe numa noite chuvosa, trovões e sem saber como voltar. Sentiu medo. Admite que sentiu. Foi por um segundo, mas lhe cortou os pensamentos como se tivesse ela mesma sido atingida pelos raios que iluminavam o céu tempestuoso. O sorriso debochado vacilou por um momento. A auto confiança não se sentindo assim mais tão confiante. Cambaleou em seu pedestal de seguranças falsas. Algumas memórias, mas sobretudo o medo. Somente por um segundo. E já foi o suficiente. Determinante. Naquele um segundo algo muito forte dentro dela se contorceu, agonizou, mudou. Alguma mudança muito significativa que ainda não consegue de todo explicar. Só sabe disso, mudou e não sabe voltar. Não se reconheçe, olhos limpos, segura em um canto seco, aparando as garras e cuidando para que suas presas não firam quem a envolve. Em certa manhã arriscou até um sorriso. Soube dar um abraço terno, imagine só.

Sabe que mudou, não se reconheçe mais, não sabe por que mudou, só que mudou.
E não gosta disso. Nem um pouco.


But through it all, when there was doubt
I shot it up, or kicked it out
I fought the war, and the world
And did it my way

(Sid Vicious)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lilac Wine


When I think more than I want to think

Do things I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you


Já fui muito feliz, sabe. Já contei? Já te contei dos sorrisos que exibia de sol a sol, iluminando meu quarto e todos os limites dessa minha relidade? Fui feliz, com todas as minhas histórias mirabolantes dançando sob minhas pálpebras ainda cansadas. Rindo, diz que tenho uma fértil imaginação. Rindo de todas as improbabilidades que canto a plenos pulmões. Te vejo divertir e isso até se parece com um pouco de luz por entre essa neblina densa. Mas acredite. Ou não, se não quiser se deixar envolver pelo impossível, pelo mistério, pelo devaneio e pelas memórias escorregadias.

Mas disse e repito, lentamente por entre cobertas e pernas e sonhos. Já fui tão feliz um dia que sequer sabia qual o gosto das lágrimas. Já corri por entre feras, já pesquei sentada em nuvens. Te digo em mínimos detalhes. Não me lance esse olhar incrédulo. Já algum dia fez tudo o que conto, para então poder afirmar impossível? Peixes multicoloridos se tornaram amigos meus, e viajaram comigo aos confins do mundo. E nos confins do mundo encontrei um laço de fita, e esse laço de fita trazia consigo um perfume singular. Procurei por todas as partes de onde vinha esse perfume, atraída como que por encanto. Senti todos os gostos, mas nunca encontrei por entre os beijos os cabelos que sentiam tanta falta do laço de fita. E ele sempre se remexendo por entre os dedos, mudando de cor para satisfazer meus sorrisos, mantendo sempre aquele indescritível e único perfume. Que me fazia enlouquecer. Que me fazia buscar, querer, tentar, viajar, vasculhar todas as reentrâncias por uma simples nota novamente do perfume do laço de fita. Não ria dessa forma, não acredita que pode alguém ir aos mais impossíveis lugares pelo simples toque dos cabelos macios que deixaram como de propósito o laço de fita, o perfume e o encanto ao cruzar despercebidos o meu caminho? E como procurei. Pelos mares, pelos desertos, pelas cidades infindáveis. Vi casais sob estrelas pálidas, vi ódios sobre tapetes de rosas. Vi beijos que diziam tudo, menos te amo. Vi sorrisos, sim, mas quase como raras pérolas em mares revoltos. E sempre a seguir o rastro do perfume que me enfeitiçava a cada instante. Que me motivava. Naveguei por mares internos, percorri toda a via láctea, fiz pedidos a estrelas do mar, cavalguei cavalos alados, que por sobre as colinas me mostraram mundos completamente novos. Fui feliz. Tão feliz.



E então, com esse meio sorriso, com esse olhar debochado, rindo das minhas aventuras, imaginando impossíveis, comparadas com suas monotonias, me pergunta se finalmente encontrei o tal perfume, o tal laço de fita. Encontrei? Não sei bem, não lembro bem. Havia realmente um perfume impregnado e era mesmo o laço de fita mais que um tecido esfiapado? Não sei bem. Nada mais é tão claro, e as memórias escorregam para seus recôncavos silenciosos. Joguei então o laço de fita a esse mar tempestuoso, cruel, de um desespero sutil, e enquanto bebia na areia morna esse cálice de angústia, pensava. Sim, já fui feliz.

Seu perfume me parece tão familiar ao despertar de cada manhã, sabia? Parece-se tanto com o meu também.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Have you ever seen the rain?




Yesterday, and days before
Sun is cold and rain is hard
I know, been that way for all my time




Sorriu com os raios da aurora acordando-a desse não sono a noite toda. Sorriu bom dia, como se houvesse havido um boa noite. Sorriu, analisando finalmente os contornos que a cercavam. O contornos que ela própria assumia. Os contornos que se apossavam dela de forma quase líquida, preenchendo os vazios deixados ou sequer percebidos. Até os raios desse sol ainda tímido lhe pareciam novos, entrando oblíquos e fragmentados em retinas recém não acordadas. Recém abertas.

Quem era ontem? Qual era a cor de suas canções? Ou qual o tom do toque de seus dedos? Qual o gosto dos pensamentos solitários? Quem lhe sorria no espelho? Quem lhe confessava as vontades nas noites insones?

E essas poucas horas. Não sabe bem, poderiam ser segundos ou quem sabe anos, completamente insones. Os olhos bem abertos, quando lhe era permitido, vendo atentamente as mudanças, nessa noite tão longa. O escuro acolhendo os segredos, acolhendo as liberdades. Permitindo. Esse tempo que então a moldara em madeira ou pedra, mantendo a maciez dos contornos mais belos. Os contornos, então seus contornos.

Sorrindo para a quase esquecida aurora, tenta distinguir no meio da ainda penumbra o rosto que lhe devolve o bom dia, que lhe percorre com os dedos os centímetros de pele descoberta. Toda a pele descoberta, toda a sensibilidade latente. Muito confuso, muito difícil. Mais fácil a simples tranquilidade do dia que desperta, sem tentar distinguir, só aceitar que pode ser como pode não ser também.

A pele lisa, nua, deixando transparecer os pensamentos inerentes, deslizando rápidos por entre pudores e inocências. Se vê surpresa ao perceber que as curvas antes imaculadas agora se parecem mais memórias de todos os momentos, condensadas em centímetros intermináveis de coxas e costas e braços e quadris. Cada infimidade com todas as histórias a contar, não mais só a pele nua, e sim uma infinidade de dores, amores, filmes, e histórias quase fantasiosas. Alguns destaques outros esquecimentos. Todas as marcas. Os medos desenhados em tinta viva, contornando os ombros e descendo pelo frio da espinha. Os amores se aninhando aconchegantes em torno dos pêlos dourados dos seios. Até as dores se mostrando assim, à vista de todos, tatuadas como em fogo. E nenhum vazio. Que consiga ver. Percebe essa pele nua que não só pele nua é então... E até os arrepios soltando ao vento que entra pela janela os sussurros da noite anterior, cantando à manhã os pensamentos mornos, com cada ínfimo arrepio deslizando para o ar uma memória diferente e contrastante. Antes tudo tão liso, inocente, e então essa súbita explicitudes do que lhe percorre a alma. Como se transbordasse para a pele sensível o que lhe revolve os pensamentos. Parecendo que não mais sua simples alma pudesse comportar sozinha todas as memórias e anseios, tendo então que macular de forma bela as belezas antes nuas, tendo que expressar para todos os pensamentos, tendo que gritar para o mundo as bagagens. Tendo que dividir, e não só mais esconder o que faz dessa lagoa calma ora mar agitado.

Não mais só pele a mostrar, mas então tudo o que lhe faz ser dos contornos, das formas, das cores e amores que é. Tudo a mostrar, sem esconder por trás de sorrisos falsos pretensas insensibilidades.

E continua sorrindo, sentindo, saudando, esse dia que já plenamente desperta. Da forma que for, da forma que quiser ser.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Strange days

Me disse assim, como quem olha ao longe o pôr do sol. Como quem sequer percebe as palavras escapando de seus devaneios profundos. Numa tarde qualquer, nublada, cinzenta, provavelmente. Parecendo por engano, me disse, quase por brincadeira. E não percebeu as marcas profundas que deixou nessa consciência já não tão mais imaculada. Não percebeu o olhar de espanto, quase medo. Não percebeu a busca por uma saída. Não percebeu as consequências daquelas palavras ditas ao vento. Talvez nem fossem aos meus ouvidos.

Os corpos tão nus. As mentes tão cobertas, acorrentadas. Os sonhos contidos. Sempre foram. Algum dia fomos capazes de sonhar com algo mais que a simples necessidade? Sempre alguma necessidade, a fome pelo simples prazer de sentí-la. Mas nunca houve mais do que pensamentos espartanos. As montanhas não foram feitas para nós. Os amores brutos, simples, básicos, já pareciam nos satisfazer. E assim que era. Numa compreensão mútua de silêncios cúmplices. Não mais, e eventualmente um pouco menos. E assim foi, sempre foi.

Foi todos os dias, foi todas as noites, foi todo o tempo. E não foi nunca. Nada nunca existiu. Esse acordo quase. Era tão fácil. Uns amores que nos distraiam, e então novamente nossa necessidade mútua pelo vazio. Nunca muito longe. Sempre voltando para esse estar que faltava tudo, não supria nada. E talvez por isso gostássemos. Talvez por isso repetíamos o erro de voltar e voltar. A simples nudez nunca supriu nada. Supriu nossa busca pelas destruições lentas, pelas solidezes fingidas, pelas solidões acompanhadas, no máximo.

Até aquele dia. Entre um copo e outro de whisky, quando víamos a chuva escorrer pelo vidro. A chuva escorrendo também pelas mentes já quase anestesiadas. Não saberia dizer que horas marcava o relógio. Quem sabe manhã, ou então tarde. Até noite poderia ser, quem sabe o sol tivesse esquecido de se pôr, ou tivéssemos nós esquecido de perceber. O tempo sempre passava assim, lento, espesso, sem sequer tomar consciência de nós ali. E antes que eu pudesse entender com clareza as palavras deixadas escapar, me fitou com aqueles olhos de tempestade que eu sequer houvera percebido antes.



Como por impulso, rápido, antes que minhas limitações me impedissem de tal ousadia, admiti te amo também e nunca foi diferente.


Nunca mais nos vimos.
Um copo pela metade sobre a cabeceira e a fome sempre a consumir.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Butterfly Kisses

Amor, não é bem assim que funciona, tente entender. Não é com esses olhos da cor das tempestades que pode me dominar. Não é me fazendo ver os mares profundos e o profundo da alma que fará então tudo ser linear e claro diante de meus próprios olhos. Tente entender, amor, nada é linear e claro para mim. Se fosse, essa conversa, toda essa situação seria paradoxal, e sabe bem disso. Sabe bem que sem o conflito não sei seguir em frente, e são os problemas que me movem.

Nada é tão simples como julga, meu amor. Cada pequeno ato, cada pequeno gesto, cada pequeno arrepio vem carregado de toda essa carga de pensamentos e todo um dia remoendo os detalhes. Suas inconsequências, amor, não passam batidas. E sei que as minhas palavras pretensamente jogadas ao vento também não voam como andorinhas no verão distante. Sei bem que silenciosamente se alojam aí dentro dos teus olhos, silenciosamente. Definitivamente. E que dorme pensando nas minhas palavras calculadas. Envergonhadas.

Mas deixemos que os ponteiros se apressem. Deixemos as folhas cairem, o branco dominar, e então quem sabe com as flores venha também a compreensão. Não só a tua. A minha anda perdida, escondida. Me ajude a encontrar, e eventualmente te esclareço os sentidos dessas sílabas desconexas.

domingo, 6 de junho de 2010

Open Your Eyes

A pata toca o chão com aquele conhecido som surdo. E nesse milissegundo nenhum som mais faz sentido. O som abafado, a suspensão do tempo. Uma pata ao chão, as outras no ar. Toda a velocidade possível. Aquele milissegundo. Os músculos todos retesados, com a máxima potência disponível. As pernas em seus ângulos mais belos, toda a força demosntrada. Naquele ínfimo momento. Os cabelos ao vento, e o vento acariciando com todo seu significado os centímetros disponíveis. As narinas dilatadas, em busca de mais oxigênio, para mais explosão, para mais potência, para mais velocidade. Para todos os músculos. E nenhum ocioso, todos mostrando a capacidade singular. Moldados e lapidados por gerações especialmente e unicamente para esse propósito. Para esse segundo. Os olhos qual gavião. Nenhum detalhe lhe escapa, na velocidade a atenção é de maior importância. Injetados de sangue. Não a estrada, mas as grandes estepes sob suas retinas. Não o desejo da mão que lhe governa, mas toda a liberdade que sabe que já teve, e que lhe é destinada. A corrida interminável. Reduzida ao momento mais ínfimo. Cada pêlo do seu corpo eriçado, atiçado, sentindo com exatidão o vento frio dos campos distantes. Sabendo exatamente qual o próximo músculo a contrair, o próximo movimento. O tempo como suspenso, enquanto aquela pata forte pisa esse chão endurecido. Embrutecido. Nenhum tempo. As partículas de terra que se elevaram à sua passagem paradas em algum ponto atrás de si. Todos os sentidos aguçados. Aquele momento. Suspenso. Estático. Ínfimo. Eterno.

E então a pata sai do chão, e tudo volta ao seu ritmo frenético e impiedoso. Tudo exatamente igual, exatamente veloz, exatamente intenso. Tudo igual.

A consciência nunca mais a mesma. Plena consciência.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Boulevard of Broken Dreams

Qual mendigo, ou louco, vaga sem rumo por ruas avenidas vielas e todos os parques. Suas roupas denunciam sua condição, ou não condição. Seus olhos vazios, olhando para rostos para monumentos para todos os tipos de belezas e perigos, sem ver nada, sem captar uma grama da realidade sufocante. Better nuts than dead.

Repete para si mesmo que não foi assim sempre, que já foi diferente, completamente diferente. Talvez por medo ou ilusão. Por desilusão, tudo se tranformou nesse tom morto de cinza, como o que ilumina a cidade fustigada logo após uma tempestade. Todas as tempestades. Mas como confiar na memória de um louco? Como confiar, quando em poucos segundos se passa da ilusão, mas uma feliz ilusão, para todos os tipos mais danosos de desconfiança, que aos poucos corroem suas certezas, que aos poucos corroem seu coração? As memórias se confundem. Um bom dia pode ter sido dado tanto ontem quanto ano passado, e não faria a menor diferença, nenhum dia mais é bom. Ou sequer ruim. Simplesmente é. Já que nenhuma impressão mais consegue ser captada por esse corpo cansado de cair e se reconstruir, esses olhos vazios, essa pretensa loucura. Seria mesmo a loucura? Se fosse louco, não saberia voar para conseguir fugir, quando a situação assim me intimasse? Se fosse louco, não saberia tranformar o cinza em verde limão e brincar com esses sentimentos cruéis, como com amigos imaginários? Se fosse louco, ainda confundiria suas próprias lágrimas com as outras lágrimas, com a chuva de inverno, com a água que bebe, ou a água em que mergulha? Se fosse louco, não saberia atuar com suas próprias lágrimas de formas mais alegres? Cantar e correr, e dançar alucinadamente, fazendo das lágrimas o combustível primário.

Better nuts than dead. Almost dead. Já não confia mais, já não ri mais, já esqueçeu os passos da reconstrução, cansado cansado exausto de todas essas seguidas e extenuantes reconstruções. Melhor assim, só vagando vagando, andando por qualquer lugar, por todos os lugares. Só ele. Ele só. Buscando? Talvez. Nem mesmo seu resquício de consciência saberia responder tal audaciosa pergunta. Não lhe pergunte. não sabe responder suas próprias dúvidas e nem confiar nas meias respostas, também não saberá responder perguntas geniosas de um sorriso qualquer que lhe cruza o caminho determinado e se acha no direito de lhe dirigir palavra. Sem mais indivíduos na sua vida, além de si mesmo, cujo individualidade a tempos ficou no meio de um cruzamento movimentado.


Better nuts than dead. How can I say? Dead he would be painless, thinkless. Calmless.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Broadway Rhythm Ballet


Não quero a música, não quero e não insista. Só quero pensar e pensar e cantar e dançar. Cantar as músicas mais loucas que me vierem à cabeça e dançar uma valsa burguesa, uma valsa proletária, uma valsa qualquer, com passos inventados e trôpegos. Uma valsa sobre a ponte, te pegar pela mão e sair correndo e cantando e valsando como dois loucos que finalmente encontram escondida no bolso a procurada sanidade. Para então atirar à água, ao ar e ao mar. Quero também, nessa lista interminável de coisas que mais que quero, preciso, te ligar no meia daquela madrugada bem fria de um inverno qualquer, ou que poderia ser nosso, e dizer te amo, e por mais que isso não te tenha nenhum significado, e talvez nem para mim tenha de verdade, te amo e sei que no meio dos sentimentos confusos essa certeza paira. Nem quero uma resposta, a simples respiração, tua simples presença ouvindo minhas palavras bêbadas já me seria o suficiente. E invariavelmente nunca voltaria a lhe falar, um oi ou um bom dia sequer.

E essa coçeira nos dedos que não me abandona, que não me deixa, que não sossega. Não me deixa tranquilizar e me dá essa necessidade constante de remoer e remoer e quem sabe enlouquecer, para não afundar tragado por meus próprios pensamentos lúcidos em demasia. Ponho nesse pretenso papel essas palavras hiperbólicas buscando me livrar de tais pensamentos sufocantes, embora doces. Sem saber por um instante que isso só me faz admitir que minha loucura não passa de escapatória dessa racionalidade, ou talvez sentimentalidade, brutal.

Mas de que me importam tais sanidades? A valsa ainda não me foi tocada, e ainda espero o primeiro passo. Mas só quero mesmo é pensar. Caminhando por essas vielas escuras, buscando ligações mirabolantes entre teus sorrisos falsos e a crise internacional. Buscando saber qual o toque frio das músicas que insiste em me fazer ouvir. Ouço minha própria melodia, entoada em harpas disformes, tocadas por anjos caídos. Também gostaria de voar. Como deve ser sentir o vento correndo pelos cabelos e ter a nítida impressão de que num sinples parar de bater asas em um segundo o que é talvez não mais seja? Também gostaria de cair, e com penas pretas poder percorrer esse longo e melancólico inverno, com a companhia de meus próprios bonecos de chumbo e valsas russas. Já te disse sobre como gostaria de dançar e valsar e brincar, à vista de todos, ou na quietude do quarto? Não, não me importo com essas suas músicas bobas, com esses seus problemas bobos. Só promete que me atende, a respiração do outro lado e então poder falar tudo aquilo que não falei no primeiro momento que pude, para friamente ver tudo se tranformando defronte a mim.

Mas sim, valse comigo, nós duas, se também acha que ao mar e ao ar deve ser lançada essa pura lucidez e sanidade que mais me sufoca oprime deprime. Não mais. Adoro um fingimento, um jogo, puro jogo, em uma madrugada qualquer. Não se preocupe, nunca ligarei, e esse meio sorriso meu, que reflete o teu sarcástico, poderá perdurar por mais uns invernos. Enquanto não descubro minha coragem esquecida, ou minhas penas escondidas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

My Generation


Acordo com os olhos meio cansados, pronta para outra, para outra e mais uma depois. Quantas forem, e nenhuma satisfará. Busco a intensidade em cada fio de cabelo, em cada centímetro de parede nua, lavada, esquecida. Busco o inesquecível em cada cor que meus olhos que mal se abrem, que sofrem com uma dor de cabeça latente, uma ressaca velada, captam no quarto ao redor. Todas as festas iguais, todos os quartos iguais, todas as noites iguais, todas as pessoas iguais. Eu só mais uma dessas. Uns tons mudam, umas unhas mais longas, umas vozes mais finas, uns cabelos mais macios. Mas tudo me cansa, me cansa tão inegavelmente, me cansa e me faz querer me recolher para meu canto de unicórnios multicoloridos, flores inebriadas, bandeiras ensanguentadas e conselhos despropositados. Como meu quarto inóspito e negro e multicolorido me faz aconchegante nesses dias cansados, nesses dias de um arrependimento recorrente. Mas quanto tempo faz que não sinto a maciez de meus próprios cobertores?

Durmindo entre cabelos, peles, braços, costas, pernas. Não mais sei o caminho de minha própria casa, se duvidar, e o mundo me lembra aqueles caleidoscópios de criança. As imagem repetidas e repetidas, e só girar um pouco a cabeça ou a realidade, que de repente tudo assume uma outra condição de estar. Só girar um pouco a forma de ver. Mas nada realmente mudou, não é? E como são minhas próprias pernas, braços e peles? Me vejo em fotos, e meu cabelo não é mais meu, não entendo esse brilho estranho no olhar, e numa foto qualquer e desconhecida de uma alguém menos conhecido que deveria me reconheço. Não me reconheço. Sem identidade. Sem multicoloração, multitonalidade, multinacionalidade, multibanalidade.

Ou com todos os sonhos do mundo, escondidos bem fundos na sola do sapato, para que pise repetidamente até que se fundam e não mais precise encontrá-los. Não mais me abordem na rua e me intimem a repensar. Pensar. Descansar. Seguir e continuar. Outra e outra e outra e outra. Mais uma festa, mais uma dose, mais uma garrafa inteira e nada me é o suficiente, nada parece matar essa minha sede incurável, essa minha vontade insaciável de ter aquilo que não posso alcançar, de provar o que ninguém pode me dar. De preencher esse vazio qual buraco negro, que destrói os amores ao meu redor, sem sequer me dar o tempo de percebê-los. Que lentamente me destrói, começando da ponta da sobrancelha e percorrendo todo o frio na espinha. Esse frio na espinha, esse medo cruel de a noite acabar e não ter conseguido matar a sede, a vontade, não ter encontrado nada do que busquei por todos os cantos e gritei com todas as forças procurando. Todas as noites o mesmo frio na espinha. Os mesmos olhos me analisando, sabendo que busco em vão me reconhecer nos teus ou nos outros sorrisos, sem nunca conseguir ententer por que meu espelho me sorri torto com uma ironia cruel. E para tentar aquecer todas as vértebras e esquecer essas borboletas que de alguma forma misteriosa voam e se debatem na boca do estômago que não lembro mais da doçura de meus próprios travesseiros, da fofura dos meus unicórnios. Sequer lembro seus nomes loucos, que eles proprios se deram. Passo sempre por portas diferentes, durmo em camas de todos os tamanhos e todas as cores. E todas sempre iguais, todos os sorrisos sempre iguais, todos os abraços de a noite foi ótima, te ligo amanhã, sempre o mesmo me parecem. E nenhum me completa, nenhum até hoje me trouxe aquilo que há de preencher esse vazio que me sufoca. Ninguém ainda encontrou a cura pro meu vício de insistir nessa saudade de tudo que ainda não vi, se me permite aquele meu velho não conhecido comentar aqui.

Mas abro os olhos, pronta para outra, e virá outra e outra e quem sabe então mais uma ou duas. Não me canso apesar do cansaço mortal. Não paro, apesar do sono. Sei que aqueles olhos que todas as noites riem do meu medo ainda escondem por baixo de capas de sombras a bebida que finalmente haverá de matar essa minha sede excruciante, mortal. De me matar de sede, de matar minha sede. De me matar. A sede? Que sede?

domingo, 23 de maio de 2010

Born to be Wild


Get your motor running

Head out on the highway
Lookin' for adventure
In whatever comes our way





Deixe o relógio para trás, que os ponteiros marquem inutilmente minutos que voluntariamente haveremos de ignorar. Quem há de nos fazer cumprir tais responsabilidades vãs? Quem há de nos impor tais horários estabelecidos, convencionados, tediosos e cheios de um marasmo mecânico e pré moldado? Segure na minha mão, não sei o caminho, vamos aonde a estrada conduzir. O sonho de liberdade, fictícia ou talvez palpável, tenho certeza que compatilhas, só teme o desconhecido, mais fácil ser levada no ciclo contínuo e perfeitamente circular dessas doze, vinte e quatro, eternas horas. Brinca de cuido do meu próprio nariz e sigo meus próprios passos, sem perceber essa realidade previamente determinada que te entorpece até que lhe pareça a única realidade disponível. Essa liberdade comedida, emoldurada, pendurada na sala de estar para que impressione os amigos, todos iguais, cabelos longos, calças, ternos e vestidos, impressione com sua pretensa liberdade. A que sua rotina travesseiro-espelho-escova de dentes-café fraco-faculdade chata lhe permite. E não percebe, dentro desse caminho interminável, qual diversão de hamsters, que nenhuma liberdade sua não será previamente determinada, prevista, para que não lhe salte aos olhos o tédio opressor no qual se insere.

Por acaso já descobriu a velocidade máxima que conseguiria ir, sem sentir uma ponta de medo? E foi além, sentindo o medo que lhe gelava a espinha? Já sentiu o real medo? Aquele que lhe faz pensar daqui não passo, e se lembrou com uma ponta de alívio das mãos suadas e da rapidez de raciocínio? Me diga, antes de se sentar, já sentiu o vento acariciar os cabelos soltos e saber que toda responsabilidade não passa de convenção tola para agradar certos ternos e gravatas que não suportam em suas mãos todos os sonhos e todas as liberdades do mundo? O que é liberdade para ti? É tomar um caminho alternativo para os compromissos de sempre, de sempre, de sempre? É comer burger king e colocar na mtv em vez de um mcdonalds vendo jornal nacional? E tem medo, imagino, ou conseguiria suportar descer dessa segurança acolhedora, onde cada passo repete as pegadas de ontem e do dia anterior e do outro, conseguiria entender que sim, se tem vontades elas devem efetivamente ser concretizadas, será? Foi lá e fez. Fez? É capaz de fazer? Nem queria, mas o gostinho do novo lhe tentou mais que qualquer coisa. Assumiu o risco, assumiu todas as possibilidades, afinal era dona de seu próprio destino. Tal perspectiva te assusta, não? Não ter aquele relógio sempre a lhe dizer com segurança o próximo passo a ser dado, a próxima conhecida estrada a se seguir, com desvios estudados e seguros. Tudo tão seguro, tudo tão igual. E quando se lembra do dia que passou, consegue distinguir dos outros tantos dias tão completamente pré moldados que passaram antes dele?

Mas sei, sei bem, que sua idade, sua mãe, suas amigas todas com o mesmo sorriso e sem uma ponta de brilho no olhar, tudo isso lhe leva a tal liberdade comedida, protótipo de liberdade, ilusão de liberdade. Até seu cachorro, sempre correndo no mesmo pátio, sempre passeando pelas mesmas ruas e brincando com os mesmo brinquedos lhe leva a tal atitude rotineira, que depois de infinitos percusos até parece não ser tediosa. Fecha os olhos para a liberdade, talvez ela seja muito malvada, talvez ela seja muito complicada de se suportar. Talvez ela seja mais do que consegue suportar.

Ainda é tempo, senta na grama, experimenta o vento, e o sabor do desconhecido, experimenta jogar longe esses ponteiros cíclicos, experimenta, e isso basta. Ser capaz de experimentar talvez seja o primeiro passo adequado. Quero então que pule, se jogue, aja precipitada e inesperadamente. Mas isso deixamos para depois. Só dorme, ou dançe até os pés não mais aguentarem. Depois vemos no que pode dar. Viva. Te carrego comigo, sabe bem, ou pode vir a saber.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Behind blue eyes


Nos meus braços, com a mente distante, em todos os cantos, em todas as esquinas, em todos os rostos. Sinto teu calor, teu movimento, tua presença. Completamente ausente. Finjo não perceber, para não deflagrar minha própria carência, finjo que dentro dos meus devaneios passeias somente flores e barcos de papel. Chovem flores na rua e pisamos sobre jóias cintilantes. Uma manhã de inverno e tudo o que mais quero é o teu suspiro ao pé do meu ouvido, sentir teu perfume, tua respiração no meu colo. Uma manhã lenta, preguiçosa e adorável de um inverno um tanto rigoroso. Mais do que deveria. Aquela temperatura amena, e toda uma geada lentamente me perseguindo, vindo da ponta macia dos seus dedos e do seu olhar terno demais.

Quando percebi em mim mesma que tua proximidade, teu beijo, tua paixão me despertavam não mais que o leve arrepio, notei não em ti, mas também em mim que outros amores buscam reclamar para sim uma infinidade de meias emoções e pensamentos confusos. Que me vale contar para ti o que sonhei, e o tipo de sorriso que abri ao acordar? Se sei o que tu mesma sonhaste, e sei que meus sonhos e desejos te trariam não mais que lágrimas? A cada movimento, a cada abraço, a cada carinho te vejo mais e mais buscando outros jardins. E eu aqui covarde, sem a coragem necessária para também admitir que insistentemente anseio por gramas mais macias e conversas mais suaves. Sem a coragem de te deixar partir, com medo de que contigo parta pedaço de mim própria.

E lembro no início, no primeiro olhar, quase arrebataador, que me impediu de ver os mundo caótico ao meu redor, e somente teu olhos, teu sorriso, e por um quase acaso teu corpo todo brincando com as minhas tentações. Arrebatador. Inegavelmente tentador, desde a música, tua voz, teu cheiro, tua presença. E então a atual tranquilidade quase opressora, onde não se sabe se os sorrisos escondem o tédio e se as conversas não passam de uma forma cruel de ver o tempo passar. Não se sabe. Ou se sabe com extrema precisão, mas admitir torna-se demasiado árduo, se te busco tão insistentemente. Uma parte de mim. E quando te tenho, a tranquilidade. Só isso, tranquilidade, nem ao menos arrepios, nem ao menos uma leve ansiedade. Tranquilidade.

E como fizemos o percurso do intenso ao sutil e quase inexistente? Houve caminho? Nessa descida bruca e quase confusa, que busca me confundir e tirar minhas certezas com precisão cirúrgica. Mas então além disso ainda sinto a distância. Não há volta. Te quero tanto que quero outro abraço a me acordar, o teu não me basta. Te quero tanto que não te quero nem um pouco. E tu me quer tanto que pensa e pensa e sonha e deseja e imagina e lembra até, de outros beijos em tuas costas de outras vozes em teus ouvidos. Me quer tanto que minha companhia te entedia.

Mas a vida continua. Te amo amor. Para sempre e agora. Vem mais perto. Continua assim, acreditando que me engana dizendo que está aqui, e teu pensamento é só meu. Jogo o mesmo jogo, não se preocupe.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Netto perde sua alma


Os olhos quase se fecham, já não consegue manter a compostura tão comum, anseia desesperadamente por um sonho bom. Anseia desesperadamente, como se disso dependesse sua capacidade de seguir em frente. Percebe? Exatamente não precisar seguir em frente o torna capaz de fazê-lo. Anda por aqueles parques ensolarados, com cachorros brincando, correndo, pulando, crianças cantando, jovens namorando, e para seus olhos já cansados e marejados, nada disso passa de uma insalubre e hipócrita paisagem. Acredita ver por trás dos sorrisos as traições e mentiras e decepções. Acredita ver por trás dos rostos que o cercam sempre a mesma expressão, sua própria expressão lhe olhando de todos os lados, continuamente, insistentemente. Ninguém é verdadeiramente feliz, todos amarguram seus pesadelos diários, exatamente como ele, e somente ele não é hipócrita o suficiente para dançar ao som das lamúrias. Pensa assim. À visão dos parque ensolarado, que mais lhe parece uma tempestade que enfatiza seu próprio declínio, não consegue evitar de lembrar.

Lembra do dia anterior. Da semana anterior. Do mês anterior. Quem sabe? Quem consegue na escuridão contar as horas e os dias que vem um depois do outro, um depois do outro, num ritmo caótico e interminável, indesejado? Quando cai a noite não perde você também a noção do tempo que escorre? Lembra-se dos momentos. Lembra-se especialmente dos dias onde se viu admirando as pequenas belezas e encontrando músicas para cada situação. Rain drops keep fallin' on my head. Os dias mais nublados lhe pareciam os mais lindos, de uma poesia singular que contagiava. Os sorrisos não eram inexistentes como hoje, sequer escaços, lhe vinham por motivos consideráveis ou por nenhum motivo, lhe vinham sem pedir, e o frio, o sol e a chuva já lhe bastavam para que iluminasse seu dia com canções de aconchego e canções de boas memórias. Transformar o tédio em melodia. Uma vida que lhe parecia mais um arco íris, onde as semanas eram lembradas nos mínimos detalhes, despertando risadas e amores com simples rememorações. Uma vida que lhe parecia quase surreal. E talvez fosse. Fruto de um sonho louco. Maluca, tão curta quanto um sonho bom.

E agora esse cansaço, essa exaustão. A propria diversão lhe parece enfadonha, os próprios amores - ainda existem? - lhe parecem mais casamentos arranjados e patologias não curadas que paixões tórridas que um dia foram. Anda sobre aquela ponte, quase interminável, como se cada passo lhe exigisse todas as forças remanescentes, onde está? Como conseguir finalmente descansar, dormir, sonhar então com tudo o que vem desejando? Ainda deseja? É ainda capaz? A ponte cada vez mais extensa, mais e mais impossível de ser tranposta. Quer tranpor? Sequer vê a outra extremidade, e o que será que existe lá?

O barqueiro lhe acena. Parece agradável. Duas moedas lhe bastam. Um bom passeio de barco e um bom conchilo por praias tranquilas então. Finalmente.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Angel


Um pouco inebriada, um pouco iludida, um pouco cansada e um pouco tentada, sente a pele macia entre seus dedos, na ponta sensível dos dedos busca sentir as mais delicadas particularidades de uma pele praticamente perfeita. Não consegue evitar de pensar que somente encontrando as sensibilidades, vendo os arrepios e sentindo a maciez que se pode realmente se conheçer a fundo os sonhos. Não que acredite que o toque seja mais importante que os pensamentos e palavras. O contrário é inclusive mais razoável. Mas como ter certeza, mesmo que se olhe nos olhos, do que se esconde por trás deles? Como ter certeza se o sorriso é mais que um movimento involuntário? E então lhe vem novamente à mente, só se conheçe alguém quando se vê a pele mais delicada se render à sensibilidade, aquela sensação completamente fora do controle, sutil, mas reveladora. A pele lisa como a seda em um segundo se arrepia, se tranforma.

E então nota a própria pele. Não pode deixar de notar. E mesmo no estado de semi devaneio, semi entorpecimento percebe todas as inegáveis diferenças. Compara as mãos, os braços, cada centímetro. Não consegue deixar de notar, e nota com uma certeza sólida demais, nem sequer um ano separa uma pele da outra, nem sequer um tom de bronzeamento as distingue, e mesmo assim, suas próprias mãos lhe parecem infinitamente mais endurecidas, como se a maciez sequer houvera as tocado. Se lembra então daquele pensamento assustadoramente recorrente been there, walked this road e considera. Maybe too many roads, how many of them did I walked by choice? And how many just made me pointlesly stronger? Made me cry less and also smile less?

Mas ao mesmo tempo em que passeiam pelos pensamentos matinais tais devaneios existenciais, sorri enquanto dorme a menina um tanto ingênua ao seu lado, alheia às filosofias vãs e aos estudos do seus próprios arrepios. Somente sorri, um sonho bom, ou talvez uma boa lembrança, ou talvez nada disso, somente sorri. E aquele sorriso já parece lhe bastar, já parece ser o suficiente para varrer a ilusão, manter a tentação e preencher esse vazio que insiste em se instalar nos dias de frio e sol. Se aconchega no seu ombro e esquece momentaneamente as boas e más experiências, esquece os caminhos, esquece as responsabilidades enfadonhas e busca somente fazer daquela pele suave seu descanso desse longo tempo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

... Já te contei, amor, que já quis me matar? E que essa pensamento vem sinuosamente, em dias nublados ou dias quentes, e se instaura até que pareça a única saída? Seria uma saída não. O que ia achar se me ligasse e eu não atendesse, se ninguém soubesse nada de mim, se não tivesse ido para a faculdade nem voltado para casa. Se tu pegasse então teu carro e viesse até meu apartamento, e usasse a tua chave, e entrasse no meu quarto trancado, ainda com o cheiro da noite anterior, aquele cheiro de perfume, cheiro de amor e cheiro de felicidade. Visse todas as mesmas coisas nos mesmos lugares. A mesma cama no mesmo lugar de sempre, tentadora como sempre. Mas algo faltando, algo errado, algo terrivelmente errado. Tudo ali, menos eu. Eu ali, mas não. Não durmindo, nem sequer cansada. Não ali. Poderia tocar, mas não ia te tocar de volta. Não ia te tocar de volta como fazia todas as manhãs, nem rir das tuas piadas bobas. Não ia mais nada. Nunca mais. E não porque brigamos ou você fez algo que não gostei. Simplesmente porque eu nunca mais estaria ali. Nunca mais. Nem que você quisesse com todas as forças e implorasse que eu voltasse.

Mas você não faria isso, não é. Não te imagino implorando por nada. Nem sequer chorando. O que faria, amor? Imagino só. pensaria que era sua culpa, do alto da sua incrível prepotência. O mundo não gira em torno de ti, amor, desculpa dizer. e Sairia dali pensando que eu entrei para a lista das meninas que você arruinou a vida. Mais uma. Só mais uma? Talvez sim, talvez não. Egocentrismo é algo viciante mesmo. E dessa vez pensaria, literalmente arruinei. Não conhece nada de mim, sei bem. Sairia da minha casa, e deixaria a porta aberta. Só ligaria para a minha família em outro momento. Deixaria a chave na mesa, e sairia, meio abalada, meio incrédula. Meio previsível, pensaria.

Entraria no seu carro, e ignoraria os olhares das meninas e meninos, espantados e fascinados. Como sempre finge fazer. Iria para o mesmo bar, o exato mesmo bar onde me viu, e veio conversar com aquela menina bobinha que enxarcava com lágrimas uma boa vodka. Nuncame pediu sobre as lágrimas, a propósito. Beberia seu clássico Johnnie Walker. 21 anos. Pensaria nos bons momentos. E então pensaria que teve bons momentos a sua vida toda. Não só comigo. E pensaria como sou idiota, estúpida e infantil, negando meu direito sobre meu próprio rumo. Tudo te pertence, não é mesmo? E provavelmente depois de umas duas doses, ou a garrafa toda começaria tudo novamente, não? Ainda imagina que eu não sinto a tua vontade quando vê uma menininha como eu te olhando no fundo de uma festa, não é? Que eu não conheço o teu jogo. Aquela coisa de querer seduzir, e que o poder sobre os outros te faz mais feliz que o melhor sexo possível. Esse teu jeito de encantar, de seduzir, que é simplesmente irresistível. E então veria uma menina tão sozinha quanto eu aquela vez.

E seria tudo novamente. E como que sem querer, seriam outros lençóis, outros sorrisos, outros toques e outras músicas. E tudo estaria bem denovo, com teu ego bem denovo. E sutilmente minha memória se desfaria como que varrida pelo vento do fim da tarde. E em pouco tempo já não saberia qual o lado da cama eu mais gostava, nem qual perfume eu usava, nem qual música nós ouvíamos nos melhores moementos, na calada da madrugada.

E por fim, a sua vida voltaria ao normal, como se aquela pirralha que fez a besteira de se matar nem sequer tivesse passado por ela. Pirralhas são assim, afinal. Fazem besteiras, fazem coisas sem entender que não deveriam. Não se pode confiar, muito menos se gostar de pirralhas. Não é?

E será que quando visse em um lugar qualquer, um cabelo como o meu, um cheiro como o meu, um sorriso como o meu, se lembraria de mim? E sentiria se impregnando no fundo da mente um sentimento de saudade, irreparável e irremendável? E acharia que naquele momento, tudo o que mais queria era poder me abraçar e me mostrar o formatos das nuvens e os pássaros e as rosas à beira do caminho? Será que se lembraria, em primeiro lugar?

Nunca vai acontecer, menininha. Nunca. Me abraça, e acredita que te amo, e te quero comigo todas as manhãs e todas as noites de todos os dias. Te amo menininha, como nunca consegui amar.

Sabia amor, que pensei em me matar... hoje?

terça-feira, 30 de março de 2010

Hole in my Soul

Emotionless. Watching at the events from a top window. No reaction on her face. All former deceptions made her suspicious. Made her close her feelings inside a small lead box. Not many feelings, but all of them.

One love? Many faces in her mind, many flavours in her mouth. All sorts of memories in her bed. One love? Just if she was able to free this kind of feelings from the lead box. She threw the key from the top window.

She has been hurt so much, so many times. She is so tired of this. Much easier just to see the world from above, untouchable. Her heart Unreachable.

Lots of smiles in her memory, but none to be remembered. People reduced to numbers and voices. Who cares about dreams and smiles? Who can remember all the names? The only one really important is herself. People are stranger ♪

It hasn't been like that for her whole life. She tried, she trusted, she believed. People turned her down. Cared not about her. About her dreams and hopes. And, slowly, she learned to hide and protect the things that could destroy her most. She learned to be far from everyone, even when separated by no distance. Slowly. Or maybe to rushly.

What could happened if a smiley face from down there finds the key? to free her feelings and care for all of her being? Would her let someone love her? Reach her? Would she like to be loved? Would she be capable of loving back? Care about the girl behind the smiley face? Or just keep untouchable? Helpless?




terça-feira, 9 de março de 2010

Welcome to Paradise

Ela entra, toda fabulosa. Toda superior. Guiada pela mão e pelas próprias decisões. Os passos firmes seguindo alguém assim não tão certa do que faz. Toda dona da situação. Ela pára ao abrir da porta. Um simples olhar para aquilo já revela tudo o que as horas de conversa e de suposta intimidade não foram capazes de explicar. O caos assusta de certa forma. Cada detalhe, cada imprecisão, cada pequeno objeto já definem com precisão matemática aquela menina que antes parecia tão distante. Tão intransponível. Que conclusões tira? O que lhe faz pensar todo esse fluxo de informações? Que talvez não seja a hora de tirar conclusões. E no fundo da mente um aviso vago. A mão que a puxa parece indecisa. Parece insegura. Como uma criança. Um passo em falso pode denunciar todo o nervosismo. Como se o primeiro sorriso e os olhares ansiosos não já tivessem explicado. Ela vê a situação. Entende. E se diverte por dentro. Aumentar o desconforto lhe faz sorrir. “onde é o banheiro?” pede, como se tivesse alguma vontade. A menina a leva em dúvida das intenções. Do que fazer. E a porta se fecha. A menina só a esperar. Olha o banheiro. Arrumado. Impecável. Que contraste. Não como um banheiro de uma boate qualquer. Não como o banheiro onde elas estiveram apenas minutos antes. Sem ninguém ver e sem ninguém saber. Imagina se os amiguinhos dela descobrissem. Alguns minutos bastam para brincar um pouco com as idéias da menina.

Ela então sai. Um olhar convicto basta para afirmar quem tem o controle. E quem já perdeu a horas. Ela já cansou dos joguinhos. A menina era linda. Inocente. Quanto maior a dificuldade, maior o prêmio. E ela quer ter o que puder ter. Em um corredor mal iluminado ela beija a menina. Como tanta outras. Como tantas vezes essa noite. E sabe. Sabe que a ansiedade perdura, mas já não há mais escolha. Não há mais resistência. Só vontade. E ela a tem. O tempo que for, com quantos sorrisos e suspiros quiser. A menina de certa forma pensa sobre o certo ou convencional. Mas em segundos seus pensamentos são completamente varridos. Segundos. Minutos. Horas e horas. E ela tem consciência. Consciência do efeito que tem sobre as pessoas. Da atração. Das memórias que deixa. Dos corações partidos que coleciona na cristaleira. Só mais uma. Uma com uma cama de casal e um copo de inocência na cabeçeira. Um tapete de flores. Uma foto de criança. Ou do momento atual? Uma menina mimada. Só mais uma menina. Mas finalmente o sono. Os galos já cantam lá fora. Fora divertido. Hora de ir? Só dormir um pouco. E a menina lhe abraça. Se enrosca nela. Como se ela fosse o que tivesse para se segurar. Ela se deixa. E dorme com a respiração da descoberta no seu ombro.

O sol entrando pela janela a acorda. A menina lhe olhando com um sorriso encantador. Bolachas e flores na cabeceira. Uma meia luz inunda o quarto. Aquele quarto tão impregnado da noite anterior. Um sorriso de lembranças felizes lhe recebendo. Um olhar brilhando com a descoberta de uma felicidade inimaginada a algumas horas atrás.

Quando ela se aproximara, irresistível e poderosa, a menina lembrou das atrizes dos filmes que sua mãe gostava. Com suas unhas vermelhas e cigarros chiques. Com seus olhares insinuantes e lábios voluptosos. A menina no bar, com lágrimas de rejeição inundando sua vodka. Apenas se deixou levar pelas palavras macias. Pelas mãos macias. Pelos beijos macios. Meio sem saber. Meio com medo. Meio envergonhada. Meio curiosa. E daquele momento a esse seus pensamentos haviam viajado por tantos lugares. Todos. E agora suas convicções estavam abaladas. Apenas uma certeza. Aquela mulher à sua frente era a mulher da sua vida. Fabulosa e impressionante. Pode parecer brusco. Mas ela simplesmente sabia. E não podia negar. E agora com essa certeza gritante, faria de tudo para ter ela. Custe o que custasse. Iria ao fim do mundo, se fosse necessário. E talvez seria.