segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Jumpin' Jack Flash




Eu o encontrei provavelmente por uma estrada qualquer que já me acostumara tanto a passar. Por essas estradas que conhecemos as mínimas curvas e cada trecho nos traz memórias de tantas outras vezes que já nos vimos ali. Naquele dia provavelmente um pouco mais nublado que de costume, talvez um pouco mais frio do que o esperado, ele estava ao lado da estrada, como depois tantas vezes o vi. Provavelmente isso, sem aquela certeza de sempre, somente uma névoa pairando no limiar da memória.

O encontrei cantarolando uma canção qualquer. Sex Pistols, Rolling Stones ou Legião. Vinha caminhando ao lado da estrada, buscando um lugar logo após a próxima curva, ou a seguinte. Quero me encontrar mas não sei onde estou. Me disse um vem comigo procurar e a partir de então passou a seguir meus passos. Ou eu os dele, nunca soube direito.

A primeira impressão que tive foi de ombros cansados, de olhos que haviam visto mais do que desejavam, de mãos que haviam mais largado que segurado. Os olhos quase-cinzas, me lembravam a princípio os dias de tempestade que tanto assombraram meus tempos de criança. Mais tempestades que dias de sol, ou ao menos isso que me recordo. Mais tarde haveria de perceber uma centelha de vivacidade morando no fundo de suas retinas, uma força inesperada pairando em seus músculos, uma maciez singular no toque de seus dedos. E talvez percebesse tantas outras coisas que me pareciam tão nebulosas, se ao menos tivesse ele se deixado conhecer por mim. Talvez tivesse percebido coisas que teriam feito tudo ser diferente. Mas isso foi muito depois.

Ele era daquela forma que me intrigava tanto. Liberto. Vivendo com seus próprios pés e mal ouvindo o sopro do vento. Mal vendo o tempo passar. Ia de lugar a outro, sem ter realmente onde se fixar. Ou sequer querer. Trazia consigo aquela magia que em tempos de juventude acreditava acompanhar os andarilhos, os aventureiros, ou os simples vagabundos. Os que vagam, que parecem viver em um mundo a parte, não são da mesma realidade que a todos engole. Mas hoje vejo que a magia mais estava em meus olhos que em qualquer outro lugar. Era muito mais alguém perdido, ou simplesmente fugindo de si mesmo. E tentei tanto encontrar para ele o que vinha buscando. Inocentemente acreditando que poderia eu devolver a ele o que houvera perdido. Sem saber, ainda, que nunca eu seria capaz de lhe entregar algo que só ele poderia encontrar.

Andamos por tantas estradas então. Sentimos a grama em nossos pés e as flores roçando as pernas. Ele aprendeu a ouvir os cantos do vento, e eu aprendi os versos que sempre o ouvia cantar. Cantava God save the queen she ain’t no human being e ouvia todas as histórias e os sonhos de revolução e de uma sociedade totalmente diferente do outro lado do mar. Eu contava as histórias da terra, da infância, eu lhe ensinava sobre o sol, a chuva e a tempestade. E ele sempre me falando de seus planos de mudar o mundo, sempre soprando um nas favelas, no senado, sujeira por todo lado sem sequer perceber. Me falou dos lugares onde estivera, das pessoas que conhecera, me contou histórias que eu nunca sabia se eram completamente verdade, embora acreditasse em cada palavra que me falava nas noites em claro. Me falou sobre música, me explicou de BB King a Jimi Hendrix, com um sorriso debochado, me contando que queria ser como Keith Richards, que era mais esperto que o próprio diabo.

Eu lhe acolhia nas tardes paradas de domingo, ou nas frias noites. Lhe acolhia, lhe aquecia, acalmava seus pesadelos. Tantos pesadelos. Ouvia suas angústias, e desejava com todas as forças poder lhe ajudar de verdade. Minhas palavras lhe faziam calmo, esboçava até alguns raros sorrisos. Pela manhã me acordava sussurrando em meu ouvido she comes in colors everywhere, she’s like a rainbow e eu não podia evitar os sorrisos que sorrateiramente se faziam aparecer. Aparecera repentinamente em meus dias, e alguns dias saía da mesma forma repentina me explicando I can’t get no satisfaction babe. Sempre procurando por algo que houvera perdido, algo que houvera deixado em alguma estrada que não mais se recordava. Sabia que voltaria. E voltava na calada da madrugada, como se sequer houvesse saído, com as mesmas histórias extraordinárias, e os mesmos amigos exóticos. Talvez outros, talvez não. Sempre tão fantástico, tão distante dessa minha realidade tão simples.

Nunca me contou de onde era, dos amigos de infância, de como houvera surgido naquela estrada, naquele dia nublado. Não sabia seu nome sequer, só como gostava de ser chamado. Por vezes ficava semanas sem vê-lo, sentia sua falta, ansiava por suas histórias e até mesmo por suas angústias. E quando mais sentia sua falta voltava a percorrer aquela estrada onde o encontrara, esperando que novamente estivesse sentado, olhando o horizonte, com aquele ar distante e sonhador. O encontrei lá novamente algumas vezes quando a saudade já se tornava algo sólido dentro de mim. Como se ele também sentisse. Como se pensasse da mesma forma. Querendo lembrar aquele lugar onde pela primeira vez cruzamos o olhar. Mas nunca realmente soube se era isso, ou somente o costume que o fazia voltar, somente a inércia, o não saber onde ir.

E um dia então amanheceu com um ar estranho, ele acordado desde cedo, sequer oi me deu quando perguntei o que houve. Estava anormalmente quieto e quando lhe pedi para me contar alguma das suas histórias se manteve reticente. Me disse então que iria embora e achava que não voltaria. Que precisava andar por outras estradas, que ainda não encontrara o que vinha procurando. Com um ar de mistério que já me acostumara em suas conversas. Lhe pedi que não me abandonasse, que precisava dele, da forma que fosse, que morreria de saudades, que não saberia sorrir sem seu abraço. Let’s spend the night together, now I need you more than ever. E falava com a sinceridade dos que não aprenderam a dissimular. Implorava por algo simples. Que ficasse, que tudo estaria bem. Porém já saindo me falava It’s my life pretty babe, don’t try to change my ways como se sequer me conhecesse. Por entre lágrimas que já me começavam a escorrer o ouvi cantando mas egoísta que eu sou esqueci de ajudar a ela como ela me ajudou...

E não seria a última vez que esses versos encontrariam meus ouvidos.

Nunca mais o vi, nunca mais o ouvi cantar, nunca mais ouvi falar dele.

Nunca o esqueci.



I was born in a crossfire hurricane

And I howled at my ma in the driving rain
But it's all right, now, in fact it`s a gas
But it's all right, I'm jumping jack flash, it's a gas, gas, gas!

1 comentários:

Cogumela =) disse...

Só esquecemos aquilo que não nos marca. X)

=*

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